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Aline Midlej: "Cuidar das meninas é cuidar de um país, de todos nós"

A gente entra numa farmácia pra comprar um pacote de absorvente por quinze reais e não se dá conta de que se trata de um privilégio (ainda).

fonte · vogue13 jun 2026agora

A gente entra numa farmácia pra comprar um pacote de absorvente por quinze reais e não se dá conta de que se trata de um privilégio (ainda). Um acesso custoso que gera limitações, com efeitos diversos e igualmente negligenciados na sociedade brasileira. Lembrar que não é igual pra todo mundo sempre foi uma máxima que segui na vida e no jornalismo.

Mas há algo em comum entre a maioria das mulheres brasileiras: aprendemos desde muito cedo a suportar a dor em silêncio. Muitos dos tabus que enfrentamos há gerações são construções coletivas sustentadas pela falta de conversas que geram preconceitos cristalizados. Vivências individuais precisam ser entendidas como responsabilidade coletiva e isso se encaixa perfeitamente numa realidade ignorada de milhões de meninas no país, hoje: a saúde menstrual.

Neste exato momento há muitas delas precisando escolher entre a dor e a concentração na sala de aula. O abandono escolar atinge quase quatro em cada dez estudantes, segundo dados inéditos divulgados pelo Instituto Alana. Há situações em que mal conseguem sair da cama durante o período menstrual, quando precisam de fraldas para sair de casa diante de um fluxo intenso e de origem desconhecida.

Custa dinheiro e uma adaptação que não é ensinada (pelo contrário). Aprende-se, sim, a ter vergonha, nojo do próprio sangue, uma rejeição que é passarela pra toda ordem de discriminação e violência. Selecionar uma imagem Há tantos Brasis e isso não é novidade.

Mas alarma relembrar que negligenciamos tantos e de forma estruturada. Hoje, milhares de meninas acordam com dor e não sabem que o que sentem tem nome, tratamento e que tem alguém disposto a levá-la a sério. E, mais importante, não dimensionam como isso impacta a própria vida, sonhos e futuros desejados.

Uma violência em forma de omissão que está fora do devido debate. Todo mundo tem uma menina na sua vida. Alguém já enxergou essa menina com dor menstrual?

E o efeito que isso pode ter? São tantas e tão pouca atenção. A endometriose pode ser aniquiladora quando o diagnóstico correto chega a demorar, em média, dez anos.

Ouvir quem vive a experiência no próprio corpo é um atropelo sem humildade. Vocês sabiam que 15% das meninas chegam a faltar - de dois a cinco dias por mês - por conta da falta de recurso para lidar com o período menstrual? Cerca de 20% ficam com receio de não conseguir ir a banheiros adequados ou não ter produtos necessários como sabonete, água, absorvente.

E faz sentido. Um estudo liderado pela Universidade de Columbia levantou a qualidade dos banheiros públicos em seis cidades pelo mundo e colocou o Rio de Janeiro – representante brasileiro – na lanterna. Há poucas semanas, em Brasília, ouvi histórias que poderiam ser a minha, a da minha filha, e que têm sido apagadas, subestimadas, mesmo em ambientes de cuidado em saúde.

Era a Semana da Dignidade Menstrual e os gabinetes onde as maiores decisões do país são tomadas precisavam ouvir algumas verdades que precisam gerar políticas públicas eficientes e blindadas de ideologias. A menstruação é uma vivência inicial das meninas, mas é uma experiência social que molda a relação delas com todo o seu entorno, a começar pelo próprio corpo, pela sexualidade, pela autoestima. Isso, ao fim, desenha a forma como vão se sustentar diante de violências que, sabemos, se aproximarão num país onde mais de 80 mil crianças foram estupradas em 2025.

E onde parte do Congresso Nacional trabalha pra dificultar direitos e perpetuar valores que condenam crianças e adolescentes a uma vida de violações, sem infância, a serviço do poder que quer sempre ser servido. A semântica importa. Cuidemos das palavras porque elas atravessam.

Quando a menina menstrua, ela não está pronta pra ter um filho, tampouco "ficou mocinha". Continua criança. Vamos qualificar as conversas, a linguagem, a escuta de outras realidades, pra que aborto seja um debate de saúde pública e não da "pauta de costumes".

Vamos nos desacostumar a só julgar, pois há meninas morrendo por isso. O que a gente deseja que seja diferente para a próxima geração de meninas? Também precisamos falar dos meninos, que estão longe do assunto e crescem apreendendo que é assim mesmo.

Isso ajuda a moldar a forma como se relacionam como colegas na escola, futuras namoradas, com a própria fragilidade e com o mundo. Quando pensamos sobre o que acontece ao nosso lado, pra além de nós, avançamos sempre. Os parlamentares brasileiros têm esse dever moral e constitucional.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

Este é um resumo curado pelo The Prism a partir da publicação original. O texto completo está disponível no veículo de origem, no link abaixo.